Eduardo Pinheiro – Perguntas e respostas | “Time is money” | Portal Homem

Fabiana Fidelis pergunta:

Observo as pessoas torcendo para que logo chegue a bendita sexta-feira. A jornada de trabalho é vivida como um período a ser suportado, então chega o final de semana e passa muito rápido. Aprender a focar a atenção está relacionado com ter uma maior nitidez da duração do tempo? Se conseguíssemos prestar atenção no presente, teríamos a sensação de uma vida mais longa?

Por um lado, sim. Ao refinarmos e tomarmos as rédeas da atenção, isso cria uma sensação de espaço, de abertura. Contudo, o mais comum é levarmos a atitude da eficiência para o campo do treinamento da atenção, e nesse caso ela não funciona. Se tentamos aumentar a eficiência no próprio treinamento da atenção, forçamos a barra. Queimar pestanas no treinamento da atenção não é produtivo. Então precisamos evitar isso.

O que ocorre conosco na maior parte do tempo é que, se não há estímulo “interessante”, caímos em torpor – então buscamos um estímulo atrás do outro, e algumas pessoas constroem carreiras nesse “estilo”. É aquela imagem comum da pessoa no leito de morte se arrependendo por não ter passado tempo com a família ou aproveitado o tempo melhor. Aproveitar bem o tempo é mais importante do que simplesmente obter tempo – quando vejo adolescentes no twitter reclamando de tédio, o que é a coisa mais comum, fico de cabelo em pé! Quem dera eu tivesse tempo para parar e ficar só sentindo que tenho tempo demais nas mãos! Essa falta de contentamento com o tempo livre vem de uma cultura que está com os valores enlouquecidos.

A questão da eficiência como ideologia produz esses efeitos ruins sobre nós. Existe algo de inerentemente totalitário no controle do tempo – a cidade que passa a ter um relógio na praça central não só pode marcar o uso de transporte coletivo e permitir que as pessoas se encontrem “na hora certa”, mas passa a realmente vender e comprar o tempo.

No filme O Preço do Amanhã, o tempo é a moeda corrente (Imagem: Reprodução)

O tempo como commodity acaba produzindo uma tensão na direção da eficiência e do “progresso” geral de uma sociedade. Isso literalmente produz tensão sobre as pessoas. As propagandas de Stalin diziam algo como “vamos nos matar trabalhando agora por uns 10 anos, que o futuro será bem mais fácil”, e a direção que a sociedade tomou acabou sendo a fome, o desperdício (produziam uma quantidade muito maior de sapatos de baixa qualidade do que era necessário, por exemplo) etc. Mas, por outro lado, a promessa da ideologia da eficiência é talvez até pior: trabalha muito agora que depois você vai ter que trabalhar mais – e quando você finalmente se aposentar – muita calma nessa hora! – você será apenas um peso morto para a sociedade e para sua família. Os idosos, como os adolescentes, parece que não encontram participação na sociedade – porque é como estar fora de um jogo. É bem como um jogo, e a cultura nos leva a não dar valor para quem não joga.

E, mais do que isso, a eficiência vai consumindo os recursos até que se esgotem, sem parar para refletir a um prazo maior. São uma grande ironia econômica os prazos com que se lida no mercado: eles refletem a maior eficiência (isto é, como você faz mais dinheiro no trade off entre dinheiro e tempo) – isto é, basicamente vendemos o futuro. Nossa sociedade é desenhada para vender o futuro, e isso não está certo. Existem limites claros para o crescimento, mas a cultura da eficiência trata os recursos como infinitos – até que eles acabam, e daí guerra por recursos. A alternativa é descobrir o deleite da mera cognição, sem fugir dos estímulos, mas sem depender deles. Isso começa com o treinamento em atenção, que normalmente se chama meditação. Uma pessoa contentada, consome menos. Consumir menos e diminuir o crescimento da economia é ter um futuro: é não ter vendido o futuro. Mas imagine a cara de um empresário ou governo ao ouvir “consuma menos”! A cultura não permite que digamos isso. Essa é uma propaganda que ninguém quer patrocinar.

O treinamento da atenção produz mais qualidade de qualquer forma, mas há também essa questão da doença da sociedade em geral. Por exemplo, a sociedade está construída para cada vez produzir mais estímulo, vivemos em meio ao equivalente mental da fast food. A dificuldade de encontrar um sentido no que se está fazendo causa depressão, e a quantidade de estímulos fortes e de baixa qualidade (afetiva, significativa, etc.) causa distúrbios de atenção. Por isso essas coisas são epidemias. Então meditar e dar o exemplo da meditação é a forma mais profunda de engajamento político e sustentável que há, além de ser diretamente compassivo e corajoso diante as epidemias da cultura da eficiência.

CONTINUA.

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