Notas sobre tradução, por Ricardo Piglia

Trechos de palestra feita pelo autor no aniversário da Companhia das Letras, em 2011, e publicados na Revista 18, do Centro de Cultura Judaica, que ajudei a editar (PDF aqui).

1) Sempre me chamou atenção um comentário de Virginia Woolf, a escritora inglesa, que se surpreen­dia porque seus amigos escritores diziam de maneira unânime que o melhor romance que haviam lido era Guerra e Paz. Mas, dizia Virginia, todos liam traduções. Me parece que há algo mais do que linguagem na narração. A narração não é como a poesia em sentido pleno, parece que transmite algo que podemos chamar de seus sentimentos, emoções, algo que cada um de nós definirá, que lhe per­mite sobreviver às traduções ainda que essas não sejam excelentes.

2) A figura do leitor e a figura do tradutor, que estão em certo sentido como fantas­mas na ori­gem do romance, são parte essencial do que todos consideramos o primeiro romance, Dom Quixote. Um romance rapidamente traduzi­do, um dos primeiros acontecimentos da literatura clássica a chegar a lugares muito diversos. A primei­ra tradução para o inglês é de 1612. A tradução em francês, de 1614. Para o italia­no, de 1622. Para o alemão, de 1621. Quase imediatamente, nos cinco ou seis anos posteriores, o li­vro já começou a circular em todas as línguas. A mais extraordinária é a tradução para o chinês, de um escritor que se chama Lin Shu e seu ajudante, Chen Jialin. Shu não conhecia nenhuma língua estrangeira e seu ajudante todas as tardes lhe contava um episódio de Dom Quixote, que ele traduzia a partir do relato. O romance se chamou His­tória de um cavaleiro louco e foi um grande êxito.  É um exemplo de como um livro consegue transmitir algo além de qualquer modificação implícita que possa ser imposta na tradução.

3) Basicamente, o que o tradutor tem de fazer é pegar os sentidos múltiplos que há em um texto e reduzi-los a um de seus sentidos, e isso sempre produz possíveis equívocos. A primeira coisa que ele faz é enviar perguntas ao escritor. Partes do texto que lhe parecem obscuras. Então o tradutor é o único que verdadeiramente lê o livro. Lê todas as palavras e tem de entender todas e estar seguro. As perguntas dos tra­dutores são sempre extraordinárias. “Escuta: no capítulo 12 tinha a porta fechada e no capítulo 18 está aber­ta”. Eu sempre digo a eles: “Passou alguém pela porta”. O tradutor é, antes de mais nada, um leitor muito cuidadoso do original.

CONTINUA 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: